Depoimento de Leitura e Escrita produzido no módulo 2
do curso "Práticas de Leitura e Escrita na Contemporaneidade - Leitura e
Escrita em Contexto Digital, que me fizeram remexer o baú de felicidades que
foi a minha infância e adolescência e, que continua sendo ainda hoje e o será
por toda a minha eternidade, pois acredito que mesmo que haja outras vidas,
nunca apagamos da nossa alma o que fica gravado em nossa
memória. Bendita seja ela!
“...Ah! os santos e benditos caderninhos, quantos eu tive
em toda a minha vida... Escrevia poesias, poemas, cartas a mim mesma, pequenos
contos... Minha imaginação corria solta pelas linhas do caderninho de
cabeceira. Eu tinha por costume toda noite, antes de dormir, escrever alguma
coisa. Sempre fui muito romântica e qualquer coisa diferente fertilizava a
minha imaginação... é uma pena que eu queimei todos os meus escritos, pois
ficava receosa de alguém ler e me criticar. Uma vez peguei minha mãe lendo meus
cadernos (estavam escondidos debaixo do meu colchão e no fundo da gaveta de
lençóis e mesmo assim ela achou, que raiva....) e então eu fiquei muito brava
com ela e acabei por queimá-los. Hoje, escrevo pouco e leio muito, talvez seja
algum recalque que ficou no meu inconsciente ainda, sei lá... mas admiro muito
as pessoas que anotam tudo... concordo plenamente que os livros promovem a
reflexão, autonomia e a sensação de pertencimento ao mundo letrado. Também
agradeço muito à Deus e aos meus pais e familiares que me incentivaram sempre a
estudar, pois eles sempre afirmavam, que o letramento, a sabedoria, o
conhecimento e estudo, enfim, são os tesouros mais preciosos, que ladrão algum
possa nos roubar, mesmo que roubem a nossa vida...”
“...A Monica, colega cursista e membro do meu grupo de
trabalhos, fez com que eu viajasse no tempo para a minha querida infância
quando falou sobre as “canetinhas sylvapen”... Meu querido e amado pai sempre
me comprava (com muito sacrifício, pois a vida era muito dura para nós) um
estojinho, caderno de desenho, caligrafia e linguagem, lápis, caneta tinteiro,
esferográfica, lápis de cor, giz de cera, giz(branco e colorido) e apagador e,
as famosas canetinhas sylvapen, para as minhas férias... quanta saudade! As
minhas coleguinhas e meus primos vinham passar as férias na minha casa (sempre
morei na roça e continuo na mesma casa, que ainda é uma chácara) e nós fazíamos
uma verdadeira escolinha (parecida com a do Prof. Raimundo). Tínhamos até uma
lousa que meu pai havia feito para mim. Aprendíamos e ensinávamos também. Nos
reuníamos até para ensinar as crianças da olaria, próxima à minha casa... Como
era saudável, pois meu avô paterno, que era um ex-padre italiano, adorava nos
ensinar também. Meu avô materno, sentava na taipa do fogão à lenha e ficava
contando para os netos, histórias de Pedro Malazartes, saci pererê, caipora,
lobisomem, etc... Minha mãe e meu pai só tinham o ensino primário, mas eram
muito "letrados"; estavam sempre lendo jornais, revistas (cruzeiro e
manchete, fatos e fotos, etc ...) e liam todas as reportagens, estavam sempre
lendo alguma coisa e isso fazia com que nós nos estimulássemos a ler porque
eles não queriam receber reclamações da professora quando voltássemos às aulas.
Sabe, meu pai comprava canetinhas sylvapen para ele também, pois à noite, após o
jantar, ele desenhava e escrevia (fazia umas historinhas em quadrinhos para meu
irmão e para mim, as quais sempre tinham continuidade no dia seguinte...);
minha mãe costumava ler antes de dormirmos. Meu pai contava uma historinha toda
noite antes de dormirmos e fazia perguntas para ver se havíamos entendido. É
lógico que sempre usavam histórias de cunho moral ou fábulas. Era muito bom!
Pena que agora eu não posso mais ouvir suas histórias e nem ler seus
quadrinhos...”
“... O Marcelo, nosso tutor do curso Leitura e Escrita, através
de seu depoimento, também me fez voltar há alguns anos atrás e me provocou
emoções, pois sou readaptada e fiquei trabalhando por cerca de oito anos
na biblioteca da escola e, por incrível que pareça, comigo aconteceu o mesmo
que ele relatou, porque eu tive que reorganizar o espaço e classificar todos os
livros, que há muito estavam abandonados em caixotes e pelos cantos e,
como eu estava sempre em contato com os alunos, quando ainda lecionava,
eles não se desgarraram de mim, muito pelo contrário, foram para a biblioteca,
com o intuito de fugirem das aulas que não gostavam e usavam da desculpa que
queriam ajudar a organizar os livros e então, aqueles que eram mais
"terríveis" em sala de aula, adoravam a idéia de dar uma escapadinha
das aulas e se esconder na biblioteca e eu, para aproveitar do ensejo,
introduzia a leitura na vida deles, e dessa forma eles começaram a tomar
gosto pela boa literatura, claro que começaram por livros de poucas páginas
escritas e muitos desenhos ou fotos e à medida que foram se acostumando (talvez
por "osmose" que eu causava a eles), começaram a levar emprestado
para casa os livros de literatura clássica. Assim, de forma um pouco de
"pressão por leitura, da minha parte em relação a eles",
começaram a ter gosto pelos livros, pela pesquisa e pela arte, porque
viram que podiam se expressar melhor e mostrar o verdadeiro valor deles para os
demais. Com isso, começaram a criar pequenos textos com ilustrações,
para o mural da escola, depois vieram as peças teatrais e por fim, alguns
se interessaram tanto pelas "letras", que começaram a fazer teatro (como
você, Marcelo, e sua amiga). Hoje, alguns deles são artistas amadores de teatro
(mais por hobby do que por profissão) nas horas de folga de seus trabalhos... A
biblioteca da escola é um espaço riquíssimo para se explorar o que há de melhor
nos alunos. Dá trabalho colocar na cabecinha deles que ler é bom.... claro que
dá, mas sem o esforço da busca, não haverá a alegria da recompensa do encontro!
Vejo o trabalho da sala de leitura da minha escola hoje, que por sinal conta
com duas excelentes professoras, que não são de português, mas sim de geografia
e artes e que com muito esforço, dedicação, paciência e carinho, procuram
estimular os alunos a lerem e a desenvolverem projetos dentro da U.E. e
também estimulam muito os mesmos a fazerem peças teatrais para apresentarem aos
coleguinhas de escola. Isso é muito gratificante, porque vemos que o trabalho
que começamos um dia, continua sendo elaborado, com o mesmo empenho e dedicação.”
Maria Antonia

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